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16 Junho, 2012

Júlia Coutinho – JOSÉ DIAS COELHO. A COERÊNCIA DO SER E DO FAZER

(Reproduzido de ESC, 1ª versão)

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«Não chegou a adquirir fama o nome de José Dias Coelho […] e as histórias da arte, se não forem muito minuciosas, ignorá-lo-ão»

(J-A França, Diário de Lisboa de 04-02-1977)

1 – Um estudo recente sobre a Escultura Portuguesa ligada à escola de Lisboa 1 revela-nos serem os anos quarenta/cinquenta os “menos amados” pelas críticas da época e actual. Alerta-nos para a premência do estudo das motivações que têm ignorado e omitido as obras e os nomes desses escultores e faz eco, ainda, do sentimento de alguns deles, ainda vivos, que dizem não se reconhecer numa historiografia que genericamente os apelida de “estatuários” e os vota ao esquecimento. 2

Reconhecendo a importância de um estudo aprofundado – que não este –, importa salientar que este silêncio tem dois grupos de causas, ambos enraizados na sociedade político-cultural vigente. No primeiro grupo incluímos o ensino anacrónico – artístico, pedagógico e curricular – ministrado na Escola de Belas Artes de Lisboa e a inexistência de ateliers e galerias. No segundo temos a censura e a repressão impostas pelo regime e a inexistência de uma crítica isenta. Esta, quando não situacionista, era exercida pelos próprios artistas (J Pomar, L Freitas, F Azevedo, F Lemos, J-A França) gerando fenómenos parciais em função de grupos ou promoções que acabaram por tornar-se numa “tremenda prática portuguesa: a omissão” 3 para além dos regimes políticos, exercida em função de lobbies dominantes.

Hoje, à distância de meio século e três décadas após Abril, quando o sentido de justiça faz mais sentido e da arte se fez História não deixa de ser preocupante que essa omissão continue. Alguns artistas precisamente os que não tiveram escolha, os que não pactuaram nem beneficiaram de encomendas estatais mercê de uma ética assumida com prejuízo das próprias carreiras, serão ignorados. Não lhes assiste o direito à Memória. E aqui incluímos José Dias Coelho.

2 – Se procurarmos na sua obra o conceito romântico de originalidade que acentua a unicidade e irrepetibilidade largamente defendido pelos artistas da primeira geração do modernismo português, não o encontraremos. Percebe-se a ausência dessa ambição que, sejamos claros, era já um anacronismo no período que viu nascer a maioria da sua produção: anos quarenta e cinquenta.

Mas se não podemos considerá-lo original também não podemos vê-lo sob conceitos academizantes associando-o ao exercício da mimesis e ligando-o à prática da Escola de Lisboa onde a escultura foi a última das artes a ser dotada de ensino erudito e a ortodoxia formal limitava os artistas à reprodução invariável dos modelos antigos. As obras de Dias Coelho desmentem-no.

Tão pouco podemos atribuir-lhe uma lógica conforme aos conceitos naturalistas dominantes na comunidade artística oficial, alheada dos movimentos da arte além fronteiras e fiel aos mestres intestinos de fins do século.
Aos artistas, segundo Luigi Pareyson, colocam-se duas maneiras de visualizar ou reflectir a arte que os antecede: ou a encaram “na sua perfeição dinâmica e na sua operativa exemplaridade [geradoras] da possibilidade de uma operação (…) original (…) de uma imitação criadora; ou podem limitar-se a vê-la na sua “extrínseca e imóvel perfeição, e então a forma decai para fórmula, o modelo para módulo, o estilo para cunho, a obra para estereótipo e não aparece senão a estéril repetição”.4 Este não é o caso de José Dias Coelho.

E por não raro depararmos com alguns radicalismos voltamos a Pareyson para afirmar que o dilema entre uma “genialidade artística” ou o “servilismo da repetição” é demasiado peremptório correndo-se o risco de remeter “para o inerte reino da imitação tudo quanto não se inclua nos cumes raríssimos (…) de uma prepotente inovação (…) e perder o critério para distinguir a imitação criadora e inovadora da imitação repetitiva e reprodutiva”. 4 Daqui enferma muita da crítica e da historiografia artística portuguesa.

Sem rupturas morfológicas a escultura de Dias Coelho reflecte o ecletismo de quem necessariamente procura uma plasticidade própria em torno das mais diversificadas fontes. Inconformista, ele persegue ideários cívicos e estéticos de acordo com o momento histórico que se vive e as concepções humanistas de Bento de Jesus Caraça (1901-1948). Colocando a tónica no Homem, Caraça definiu valores éticos e culturais que influíram toda uma geração e subjazeram ao ideário dos artistas que então procuravam, por caminhos comuns, uma singularidade pessoal.

Aderente do neo-realismo, o movimento que melhor enformou desta ideologia totalizante – pese embora um estudo aprofundado nas artes plásticas esteja por fazer -, a verdade é que as suas obras não reflectem a iconografia que se convencionou associar-lhe. Com uma ideologia comum que as Exposições Gerais de Artes Plásticas traduzem, nem sempre aos artistas as motivações iconográficas se lhes equivalem o que deita por terra certa argumentação de um fazer estritamente direccionado ou arregimentado.
Movendo-se num universo realista ou refugiando-se num verismo lírico muito seu, Dias Coelho tem no desenho a sua expressão mais constante o que “não deixa de se revestir de particular importância – na medida em que, entre nós, o escultor rarissimamente desenha ou procura”, como assinalou Pomar.

De notar que lhe foi atribuida pelos seus pares uma 3ª medalha de escultura num dos salões anuais da SNBA (Primavera, 1949) o que atesta o reconhecimento de um percurso de pesquisa e de liberdade criadora: ”Dias Coelho está a entrar num caminho seu, de teimosa procura e simplificação fecunda. Simplificação que não significa eliminar dificuldades, mas constatá-las e vencê-las através de persistente e inteligente trabalho o mais das vezes silencioso e sem alardes” – palavras que o perfilam na demanda da sua plasticidade. (J. Pomar, Vértice, Junho 1950)

Artista moderno e não conformista, reconheçamos a Dias Coelho um sentido de pesquisa e de inovação sempre perseguido e nunca abdicado, mesmo quando as contingências de uma vivência clandestina o obrigaram a um dificílimo exercício do fazer. Conhecem-se duas pequenas esculturas de 1958, duas “maternidades,” em terracota, uma das quais oferece ao médico que acompanha o nascimento da sua filha Margarida. Em plena clandestinidade.

3 – O conjunto de obras escolhidas para esta exposição, não sendo absolutamente representativo da produção de Dias Coelho, dá-nos uma visão abrangente dos géneros e temáticas que povoaram o seu universo. Num total de 31 peças em que apenas duas são esculturas, reúnem-se aqui praticamente todos os géneros, temas e materiais por si trabalhados, divididos por cinco núcleos: Retrato e Caricatura; Pintura e Desenho; Imagens de Pinhel; Clandestinidade; Escultura e Cerâmica.

Como género artístico, o Retrato assume um lugar único no contexto geral da sua obra seja em desenho, pintura, modelagem ou caricatura. Proliferam os retratos que se conhecem da família, dos amigos, de colegas e de personalidades da vida cultural portuguesa como Isabel Aboim Inglês, Alves Redol ou Fernando Namora.

A característica que mais ressalta deste conjunto de obras é que praticamente todas correspondem à fase mais juvenil do artista, sendo muitas delas anteriores à sua entrada em Belas Artes (1942). Veja-se, por exemplo, a “Cabeça de Rapaz” (1938), cópia de uma gravura renascentista, que corresponde aos seus 15 anos Apenas os retratos de Margarida e de Teresa (1957), feitos na clandestinidade, se demarcam cronologicamente dos restantes que não ultrapassam a primeira metade da década de quarenta: os retratos de Fernando (1940), Natália (1941), pai (1942) correspondem aos seus 17, 18 e 19 anos de idade. Contudo, pese embora a pouca idade de Coelho, é notória a sua capacidade na percepção do essencial, a grande economia de meios e o domínio absoluto do traço. Especial destaque nos merece o retrato da mãe, denotando um sentido de composição apurado por onde perpassa já uma assimilação cubista no tratamento das massas e um domínio do claro-escuro denunciador de um fazer escultórico. Idêntico tratamento tem a “Mulher Grávida” que apenas a composição dos panejamentos sugere, conferindo uma solidez que um traço expressionista tende a afastar da idealização.

De uma maneira geral o autor não oculta as suas influências. Adopta com frequência o irrealismo russo e o lirismo eslavo, principalmente o irrealismo de um Chagall, a linearidade clássica de um certo Picasso, ou a beleza poética e despojada de Matisse, esta sempre mais conseguida no traço que na cor. Veja-se o belo prato de cerâmica onde o motivo da maternidade (omnipresente na sua obra) é tratado num compromisso entre o classicismo de Picasso e a onírica delicadeza gráfica de Chagall. Quanto ao seu traçado, à sua linha firme e despojada, essa vai de Picasso a Matisse; do primeiro detectam-se vestígios, por exemplo, nas cabeças mais clássicas, de perfil grego (Par Abraçado) enquanto a sensualidade de Matisse perpassa no ondulado dos corpos. As linhas circulares envolvem as duas figuras unindo-as num espaço uterino e protector.

Das obras expostas, “Casal com Duas Crianças” (1952) – um dos poucos óleos que se lhe conhecem -, é a que mais impressiona pelo lirismo temático, pela composição e pela qualidade plástica. Lembrando Van Gogh e Vlaminck na delimitação dos espaços a que o arrojo da árvore cezanneana confere dinamismo, a composição apresenta um ritmo centrífugo que nos é dado pela distribuição espacial e pela pincelada. Uma discreta noção de vórtice com epicentro no casal oferece-nos a visão intimista e feliz em que o autor se revia, num momento em que tentava formar a sua própria família.

Nas duas peças escultóricas encontramos as temáticas que se lhe impõem e o artista persegue desde que conhecera Margarida: a “Maternidade” e a “Família”. Nelas encontramos já uma proposta pessoal do autor, bem conseguida sobretudo na primeira, onde é notória a procura constante duma simplicidade formal aliada à plenitude e sensualidade volumétricas que a modelação, a que sempre recorre, acentua.

As duas obras do núcleo Clandestinidade correspondem a uma fase determinada do seu fazer militante, onde a temática neo-realista está presente. Trata-se de um fazer em função de causa públicas. O estudo para o desenho “Morte de Catarina” assinala o assassinato de Catarina Eufémia pela GNR, em Baleizão (1954).
Já “Prisioneiros Políticos” um desenho extremamente bem conseguido, ilustrou milhares de panfletos e serviu de bandeira na angariação de proventos para auxílio aos presos políticos e às suas famílias que Salazar e a PIDE mantinham indefinidamente nas prisões. Talvez seja a sua obra mais divulgada, apesar de circular anónima.

Pinhel, a sua terra bem-amada, não podia deixar de estar presente na obra de Dias Coelho. Ele que se orgulhava das suas origens beirãs e aqui regressava com frequência, deixou imortalizados, como vemos, os mais emblemáticos recantos da cidade. É precisamente na sua “Paisagem com Castelo” que melhor podemos apreciar o quanto bebeu da lição cubista. Curioso ainda o cartaz para as Festas da Cidade, (seria interessante averiguar da data) onde não faltam os principais ex-libris pinhelenses.

«Há quem tombe por um rio / Impetuoso e comum.
Alcântara dos tiros cegos / Alcântara sessenta e um

(Pedro Alvim in Notícias do Bloqueio déc. 60)

4 – José Dias Coelho tinha 38 anos quando foi morto (1961). Dividido entre a Arte e a Política optara por esta, o que significava, então, passar a viver na clandestinidade. Tomara essa decisão seis anos antes (1955). Com todas as contingências inerentes. Já na sua ausência, a 10ª Exposição Geral de Artes Plásticas (1956) mostrara a derradeira participação pública deste artista que, corajosamente, abdicara de uma carreira promissora, da sua identidade e da própria liberdade pessoal para, anonimamente, combater pela liberdade de todos. A força anímica, acreditamos, adveio-lhe de ter consigo a mulher e a filha, esse reduto familiar que lhe era fundamental.

Talvez não tenha deixado uma Obra. Não viveu o suficiente para isso. Mas tem direito à Memória. Por generosidade e modéstia de carácter nunca pensou em termos de carreira. Não fomentou exposições individuais, não procurou sucesso pessoal. Colocou sempre os objectivos colectivos acima de quaisquer outros. A sua arte ficou dispersa pela família, pelos amigos, pelos camaradas, por todos os que amava. Fazia-a por prazer. Oferecia-a a quem a sabia apreciar. Era a sua forma de afecto. Era aquele “pedaço” de si “que se quer dar” – de que nos fala nos poemas.

É ainda de afectos que falam os seus retratos. Mais do que uma simples representação eles traduzem o seu desejo de suspender o tempo, tornar presente a ausência, perdurar os afectos para além do tempo. Fixá-los numa imagem «viva». Porque a sobrevivência se consegue pelos elos afectivos. Que induzem a diálogos interiores. Que constroem uma cadeia colectiva de outros afectos. E de valores. Valores e Afectos que se pretendem imunes à morte. Intemporais.

1 – Aida Sousa Dias, O Corpo Feminino na Escultura dos Anos 50 em Portugal, FBAUL, 2000, p.10 e seg.
2 _ José-Augusto França, A Arte em Portugal no Século XX, p. 260 e seg.
3 _ J F Pereira, Reflexões sobre as Teorias da Escultura Portuguesa in ARTETEORIA N 2, 2001, p 17-18
4 _ Luigi Pareyson, Os Problemas da Estética, ed. Martins Fontes, S Paulo, Brasil, 1997, p. 137-138

16 Junho, 2012

Júlia Coutinho – JOSÉ DIAS COELHO – BREVE CRONOLOGIA PESSOAL E AFLUENTES

(Reproduzido de ESC, 1ª versão)

(Capa de José Dias Coelho para o boletim clandestino Portugal-URSS)

1923

JOSÉ ANTÓNIO DIAS COELHO nasce a 19 de Junho em Pinhel, freguesia de Santa Maria. Filho de Alfredo Dias Coelho e de Juliana Augusta Coelho será o quinto de nove irmãos: Alice, Alberto, Fernando, Rui, José António, M Sofia, M Adelaide, M Natália e M Emília.

1925

Devido à profissão do pai – Escrivão de Direito -, a família vai residir para Coimbra. Faz os primeiros anos da instrução primária. Nasce a irmã Maria Sofia (11.07.28).

1930

O pai é colocado em Castelo Branco para onde vão residir. Termina a instrução primária e entra para o Liceu local (actual Escola Secundária Nuno Álvares) onde completa o 4º ano (1934-1938). Joga futebol (e bem, segundo testemunhos), uma prática que se irá manter enquanto estudante. Nascem as irmãs M Adelaide (27.03.32) e M Natália (02.12.35). Primeiras produções de desenhos e caricaturas. Morre o irmão Alberto. Começa a Guerra Civil de Espanha (1936-1939)

1938

A família Dias Coelho muda-se para Lisboa, para a Rua Ilha de São Tomé, 14-rc/dto. Ingressa no Colégio Académico à Rua Álvaro Coutinho 14-16, onde termina os estudos liceais. Dirigido pelos padres Avelino de Figueiredo e Sousa Monteiro, e pelo Major Simões Silva, o Académico reunia um excelente leque de professores, alguns impedidos de exercer no ensino oficial, como Newton de Macedo (afastado da universidade) e Berta Mendes (a Bá), mulher do escritor Manuel Mendes, com quem estabelece relações de amizade. Mercê deste contacto privilegiado acede às célebres tertúlias na casa da Rua Angelina Vidal e aí convive com Abel Salazar, Bento de Jesus Caraça, Manuela Porto, Lopes Graça, Carlos de Oliveira, João José Cochofel, Keil do Amaral, Abel Manta e outros.

1939

Nasce a irmã M Emília (27.03). O Colégio Académico inaugura (24.06) nas instalações da secção feminina (Av República 13) a exposição anual de trabalhos dos alunos, onde expõe pela primeira vez. A imprensa refere-se-lhe especialmente: “de entre os desenhos, destaca-se a exposição de caricaturas do aluno Dias Coelho” (Século, 25.06); “Dias Coelho, sem dúvida a maior revelação desta exposição (…). O seu lápis tem qualquer coisa de verídico. (…) grande sucesso lhe está reservado no futuro.”(Diário de Notícias, 30.06). Termina a Guerra Civil de Espanha. Deflagra a II Guerra Mundial (1939-1945).

1940

Faz exames do 5º ano no Liceu Nacional de Pedro Nunes (30.06) com média final de 12 valores.No então Bairro das Colónias, onde reside, integra um grupo de amigos com quem partilha as alegrias juvenis e as preocupações sociais. Frequentam diariamente o Café Colonial (Av Almirante Reis 24) e desse grupo fazem parte Diamantino Vargas, Victor Santos Tavares (o Saysha), José Plácido de Sousa e o escultor Joaquim Correia, entre outros.

1941

Termina o Curso Geral dos Liceus, área de letras (Gil Vicente), com média de 13,4 valores. Para mais tarde poder ingressar no curso de oficiais milicianos matricula-se no INEF – Instituto Nacional de Educação Física (a funcionar provisoriamente nas instalações da Escola Normal do Magistério Primário, em Benfica, então encerrada por Salazar), onde é colega do escultor Jorge Vieira e do encenador Artur Ramos. Salazar, que deteve o Ministério de Guerra de 1936 a 1944, “considerava o grau de cultura dos alunos das Artes insuficiente para acederem às elites militares” (Ana Isabel Ribeiro, 1993).
Frequenta as aulas de desenho dos Mestres Falcão Trigoso e Paula Campos, na Escola António Arroio, para habilitação à Escola de Belas Artes. Aí conhece Francisco Castro Rodrigues, um amigo que vai marcar o seu percurso de vida.

1942

Matricula-se no curso de Arquitectura na então EBAL – Escola de Belas Artes de Lisboa (só em 1950 passará a superior). Consigo entram Júlio Pomar, Victor Palla, Marcelino Vespeira, Fernando Azevedo, Jorge de Oliveira, Vitório David e Rolando Sá Nogueira. Conhece Frederico George (1915-1994) – regressado à EBAL em 41 para fazer Arquitectura -, personalidade que influenciará ética e esteticamente toda a geração de José Dias Coelho. Faz uma pequena escultura, uma máscara, da irmã Natália. Com Castro Rodrigues inicia o seu percurso partidário, ligado à Federação das Juventudes Comunistas. Reúnem em casa deste (Rua Senhora do Monte) onde estudam e discutem textos marxistas. Dedicam-se ao auxílio dos refugiados da guerra e dos presos políticos e suas famílias, angariando medicamentos, roupas, géneros alimentícios, dinheiro ou levando-lhes apoio médico premente conseguindo a colaboração de nomes como o Prof. Pulido Valente que generosamente com eles se desloca por vezes aos locais mais recônditos.

1943

Reprova em três cadeiras. O então director da EBAL e também professor Arq Luis Alexandre da Cunha (1893-1971), que passaria à História como “Cunha Bruto”, mantém uma postura prepotente e déspota pautando as avaliações por critérios parciais. Discrimina os alunos consoante provêm dos liceus ou das escolas técnicas (António Arroio e Casa Pia), não reconhece às mulheres capacidade para o curso de Arquitectura, aprova ou reprova segundo as simpatias pessoais . A alternativa, para muitos, é a transferência para a Escola de Belas Artes do Porto e lá fazerem as cadeiras daquele professor. Seguem esta opção Júlio Pomar, Victor Palla e Jorge de Oliveira, enquanto Vespeira e Azevedo se afastam em definitivo do meio académico.

1944

Não se matricula em 1944-45 porque é chamado para o serviço militar em Tancos. Com ele, segue o colega e amigo Vitório David. É criado o MUNAF. Jorge Vieira entra para Belas Artes. Numa entrevista dos anos 90, lembra uma distribuição de comunicados daquela organização feita por ambos no INEF.

1945

A família Dias Coelho muda-se para o bairro de Campo de Ourique e passam a residir na Rua Almeida e Sousa, 67-1ºEsq, no prédio ao lado do Prof Bento de Jesus Caraça. Termina a Segunda Guerra Mundial. É fundado o Movimento de Unidade Democrática (MUD) e é através da sua Comissão de Escritores, Jornalistas e Artistas Democráticos (CEJAD) e da sub-comissão dos Artistas Plásticos – de que fazem parte Castro Rodrigues e Dias Coelho – que vão encetar-se esforços para dar aos artistas um local onde exporem, que não o SNI. O processo passará pela entrada de novos sócios para a Sociedade Nacional de Belas Artes (SNBA) e pela subsequente alteração da correlação de forças nos orgãos directivos. Em 1945-46 matricula-se nas cadeiras do primeiro ano e em algumas do segundo. João Abel Manta entra para Belas Artes.
Com Manta, Sá Nogueira, Jorge Vieira, Duarte Castelo Branco, Sena da Silva, João Malato, Vitorio David e outros cria o hábito das tertúlias. São conversas de cariz cultural, sempre, mas onde Coelho introduz, também, questões político-sociais e que se estendem noite fora na casa de Vieira, na de Duarte, no Café Chiado ou, ainda, no atelier de Frederico George, uma segunda casa para todos. Lêem e discutem livros que circulam de mão-em-mão, revistas de arte trazidas por João Abel e Sena da Silva, frequentam concertos, discutem arte moderna. Apreendem a cultura e a consciência cívica que a escola lhes não dá.

1946

Participa numa exposição privada na dependência do atelier de Abel Manta (pai) com Carlos Calvet, Lima de Freitas, João Abel Manta, Jorge Vieira, Sena da Silva, Lagoa Henriques e Castro Rodrigues. A exposição é visitada pelo Prof. Adriano de Gusmão.
Em 1946 uma lista dos artistas democráticos ganha as eleições para a direcção da SNBA e as portas desta instituição abrem-se à modernidade.
Tem lugar a 1ª Exposição Geral de Artes Plásticas (EGAP) na SNBA (Julho). Realizar-se-ão 10 EGAP´s entre 1946-1956, apenas com interregno em 1952. Pela primeira vez reúnem-se criadores de todos os géneros artísticos, sem limite de idade e sem júri de admissão, numa frente comum de oposição aos Salões de António Ferro. Apenas uma exigência: não voltar a expor no SNI nem colaborar com o governo. Dias Coelho não participa nesta mostra, mas faz parte da Comissão Técnica que procede à sua organização e montagem, com outros colegas como Castro Rodrigues, Sá Nogueira, Louro de Almeida, Lima de Freitas e João Abel Manta.
É criado o MUD Juvenil no Centro Republicano do Lumiar (28.07), no qual milita desde a primeira hora. Activa até meados de cinquenta, a Comissão de Escola do MUD Juvenil da EBAL (de que é líder) vai congregar nomes como J Abel Manta, Lima de Freitas, António Alfredo, M Emília Cabrita, Jorge Vieira, Bartolomeu Cid, José Croft de Moura, Nuno Craveiro Lopes, Sena da Silva, Arnaldo Louro de Almeida, Margarida Tengarrinha, Cecília Ferreira Alves, Tomás de Figueiredo, Hestnes Ferreira, Augusto Sobral, e muitos outros.
Completa o 1º ano de Arquitectura. Em Setembro ainda se inscreve no 2º mas, após uma séria reflexão decide, com o amigo Sá Nogueira, mudar de curso. Ambos abandonam Arquitectura: Sá Nogueira vai para Pintura, Dias Coelho para Escultura (7 Out.).

1947

O MUD Juvenil organiza a Semana da Juventude (21-28 Março). O Governo desencadeia forte repressão e prende a Comissão Central e muitos outros jovens apoiantes. Dias Coelho vai dinamizar a Comissão do MUD Juvenil na EBAL e recolher assinaturas para abaixo-assinados de apoio aos colegas presos. Com Nuno Craveiro Lopes, são dos mais activos nos protestos junto à sede da polícia política. Faz o retrato de João Abel Manta.
Na 2ª EGAP (Maio) Coelho apresenta duas cabeças, não identificadas. Sob ordens do Ministro do Interior, a PIDE invade a SNBA (13 Maio) e retira da exposição 12 obras, de 10 autores: Avelino Cunhal, Viana Dionísio (José Viana), José Chaves (Mário Dionísio), Júlio Pomar, Maria Keil, Arnaldo Louro de Almeida, Lima de Freitas, Manuel Filipe, Nuno Tavares e Rui Pimentel (ARCO). Todos prestam declarações na PIDE e as obras só lhes serão entregues, mais tarde, com a proibição de voltarem a ser expostas. (Arquivos da PIDE/DGS, Proc. SC-494/47)

1948

É chamado para o Batalhão de Metralhadoras 3, no Porto (15 Fev) para prestar serviço como Alferes Miliciano. Aproveita para fazer na EBAP as cadeiras que lhe faltam para completar o terceiro ano de Escultura. Em Outubro regressa à escola de Lisboa.
João Abel Manta é detido pela PIDE (01-02) e vai para Caxias. Mais uma vez Dias Coelho e Nuno Craveiro Lopes lideram um movimento dinamizador entre os colegas da EBAL, e não só, para recolha de assinaturas de protesto. É solto a 14 do mesmo mês.
Participa na 3ª EGAP com a escultura “cabeça de meu pai”.
Tem lugar o 1º Congresso Nacional dos Arquitectos Portugueses, onde se destaca Keil do Amaral que, apesar de eleito, acabará por ser destituído de Presidente do Sindicato Nacional dos Arquitectos. Salientando a interdisciplinaridade que deverá existir entre as “três artes” o congresso abriu caminho para uma colaboração efectiva entre arquitectos, pintores e escultores. Nos anos subsequentes, Dias Coelho irá fazer alguns trabalhos no âmbito desta colaboração: Escola Primária de Vale Escuro, Escola Primária de Campolide, Fábrica Secil (Outão), Café Gelo (Rossio, Lisboa). Vai leccionar Desenho na Escola Industrial Machado de Castro (1948-49). Casamento do amigo Francisco Castro Rodrigues (15.09).
A oposição lança o seu candidato às “eleições” para a presidência da República (Julho) e José Dias Coelho vai constituir a Comissão Concelhia de Pinhel para a candidatura do General Norton de Matos. Afirmando as suas “ideias republicanas e democráticas” a Comissão Concelhia de Pinhel estava empenhada em “reivindicar a decência do acto eleitoral”; tinha a sede na Rua Dr António José de Almeida 27-29 e era constituída ainda pelos democratas: António Amaro Freire de Paiva, proprietário; Arnaldo Mendonça, industrial; Antero Mendonça, industrial; Dr. Horácio Alberto Santos, médico; Maximiano Cardoso dos Reis, proprietário; António Alberto dos Santos, proprietário; Manuel dos Santos Silva, proprietário; Egberto Freire Ruas, industrial; José Miragaia Monteiro, proprietário; Eustáquio dos Santos, comerciante; José António Simões Júnior, proprietário; Antero Silva, comerciante; Alfredo Domingos, industrial e Constantino de Albuquerque, proprietário. (República, 25.01)

1949

Em plena Campanha Eleitoral, que tem início a 1 de Janeiro, é detido pela PIDE (06-01) e levado para a cadeia do Aljube onde fica incomunicável. É solto no dia 10 do mesmo mês.
O candidato da oposição, Norton de Matos, desiste de ir às urnas.
Começa a fazer caricaturas para ilustrar os livros de final do curso de diversas Faculdades.
Apaixona-se por Margarida Tengarrinha, colega de Pintura na Escola de Belas Artes.
O Governo de Salazar é admitido na NATO (04-04). Realiza-se em Paris o I Congresso Mundial da Paz, para o qual Picasso desenha a célebre “pomba” (20-23 Abril).
Participa na 4ª EGAP (Maio) com quatro esculturas: cabeça do pintor Sá Nogueira, “Família”, Baixo Relevo Decorativo, “Escultura” e ainda um Desenho.
Participa no Salão da Primavera, da SNBA, e obtém a 3ª medalha, em Escultura.
Morre Bento de Jesus Caraça (25-06), o ideólogo da Cultura Integral do Indivíduo. O cortejo funerário é organizado pelo MUD Juvenil e o povo inunda as principais ruas de Campo de Ourique numa sentida homenagem.
Após uma longa luta é constituída a Associação Académica na Escola de Belas Artes que a direcção da escola reconhece. Dias Coelho é o grande obreiro e dinamizador. Os Estatutos são largamente discutidos e aprovados em Assembleias Gerais de estudantes. São remetidos à tutela, a Direcção Geral do Ensino Superior e das Belas Artes, do Ministério da Educação. Nunca serão reconhecidos e a Associação acaba por ser proibida.
Partilha um atelier, que já pertencera a Malhoa (Praça da Alegria 47) com Maria Barreira, Vasco da Conceição e Júlio Pomar. Aqui prepara alunos para admissão à Escola de Belas Artes.

1950

Executa a Cabeça do escritor Fernando Namora. Na 5ª EGAP (Maio) apresenta três esculturas: Retrato de Margarida Tengarrinha, Cabeça de Rapariga e “escultura”, bem como três Desenhos e um Retrato não identificado. É criada a Comissão Nacional para a Defesa da Paz (Julho), em Lisboa. Pouco depois esta Comissão lança a palavra de ordem: «100 000 assinaturas para o apelo de Estocolmo!», desenvolvendo uma recolha por todo o país em que participam, sobretudo, jovens trabalhadores e estudantes, e na qual Dias Coelho vai empenhar-se activamente.
É aprovada legislação (Lei 2043) que pretende reorganizar o ensino das Belas Artes, passando este a ser superior e a escola a denominar-se ESBAL. Mas a reforma efectiva só ocorrerá em 1957 com a respectiva regulamentação legislativa (Dec. 41.363). Conclui o Curso Geral de Escultura (31-07), com média de 14 valores. Em Setembro matricula-se no Curso Superior de Escultura, que nunca chegará a terminar.
No ano lectivo 1950-51, conjuntamente com o amigo Sá Nogueira, dá aulas na Escola Veiga Beirão. Aqui é alvo de um processo por parte de Fernando Pamplona, inspector do Ensino Técnico, que o acusa de estar na sala de aulas sem gravata. Alves Redol ganha o prémio Ricardo Malheiros, da Academia das Ciências e o Ginásio Vilafranquense convida José Dias Coelho para fazer a cabeça do escritor. Ilustra contos de José Cardoso Pires, para a revista Vértice.

1951

Em Maio apresenta, na 6ª EGAP, a cabeça de Alves Redol; expõe ainda cinco desenhos, de entre os quais três são “retratos” que o catálogo não identifica.
Em Junho, no Ginásio Vilafranquense, é prestada homenagem pública a Redol, sendo inaugurado o seu retrato na biblioteca daquela colectividade.
Ascende à Direcção Universitária do MUD Juvenil. Aproveitando a “abertura” da campanha para a eleição do Presidente da República (Craveiro Lopes) e mercê de uma acção concertada em que interveio com Keil do Amaral e F Castro Rodrigues, organiza uma Assembleia Geral da SNBA para discussão pública do Ensino da 8ª Cadeira na ESBAL (Arqtº Luís Alexandre da Cunha). Aprovada uma moção pública a endereçar ao Ministro da Educação, conseguem os alunos, ex-alunos e pais de alunos de Belas Artes a instauração de um inquérito aos métodos pedagógicos do referido professor, conseguindo a sua destituição de director.
No Século Ilustrado (16-05) são reproduzidas fotos de Dias Coelho e das obras “Cabeça de Alves Redol” e “Cabeça de Fernando Namora” afirmando-se que, sendo duas “obras de estilo e força expressiva elas dão também, para além da interpretação fisionómica dos escritores, a sugestão da personalidade de cada um dos ilustres romancistas.”
No ano lectivo 1951-52 dá aulas na Escola Francisco Arruda que funciona provisoriamente nas instalações da Escola Marquês de Pombal, em Alcântara. Margarida ensina na Escola de Paula Vicente. Faz o retrato do escritor Orlando da Costa para o primeiro livro deste.

1952

No Instituto Superior Técnico realiza-se a reunião do Conselho do Pacto do Atlântico (Fev) com forte contestação oposicionista, inserida na campanha da Luta pela Paz. Aos protestos aderem os alunos da ESBAL que recorrem a todos os processos para o demonstrar, fazendo inscrições nas paredes da escola. Isso levou o director a levantar um processo disciplinar a 81 alunos que haviam subscrito um abaixo-assinado de solidariedade com António Alfredo, o colega denunciado como autor das inscrições. Todos são sujeitos a um rigoroso inquérito, e todos vão ser penalizados segundo o grau de culpabilidade que o director decide atribuir-lhes. Dias Coelho e Margarida Tengarrinha são dos mais atingidos, sendo expulsos de todas as escolas do país, pelo período de um ano. Também são destituídos de professores do ensino técnico. Não mais poderão ensinar.
Na SNBA (28-03) durante a eleição de júris de selecção de trabalhos ao Salão da Primavera, o pintor Eduardo Malta acusa Dias Coelho de desonestidade na votação. Malta é desmascarado mas recusa apresentar desculpas, e o incidente origina uma polémica na sequência da qual é expulso de sócio da SNBA. Como retaliação o Governo encerra a SNBA, que só reabre em finais do ano. Em consequência, não se realiza a habitual Exposição Geral de Artes Plásticas. É padrinho de casamento do amigo José Plácido de Sousa (10.05). Cria um painel de azulejos, alusivo à luta pela Paz, que Plácido coloca na frontaria da sua casa em Vila Nova de Cerveira. Vai trabalhar como desenhador com os arquitectos Keil do Amaral, Hernâni Gandra e Alberto José Pessoa (Rua Fernão Álvares do Oriente 8 CV/Esq). Pinta o óleo “Casal com Filhos, junto a um Ribeiro” que oferece ao amigo Diamantino Vargas pelo seu casamento. A revista EVA (Natal) cuja redacção é chefiada por José Cardoso Pires, publica uma série de desenhos dos alunos de Dias Coelho e de Margarida Tengarrinha, na sequência do projecto “Ensino pela Arte” que ambos desenvolviam. Para eles António Pedro escreve a crónica “Quando os Meninos são Pintores”. Passa a viver com Margarida Tengarrinha. (03.12).

1953

Na 7ª EGAP (Maio) mostra duas esculturas: “Retrato de M Eugénia Cunhal”, “Estudo” e dois desenhos. Margarida expõe aqui pela primeira vez. Nasce a filha Teresa (03-09). Ilustra a capa para a segunda edição do livro O Sol Nascerá Um Dia, de Alexandre Cabral. Com o Arq Carlos Rafael colabora na remodelação do Café Gelo com um grupo escultórico (desaparecido), que será fixado na parede. No âmbito da Campanha pela Paz, é editado por Victor Palla um calendário para 1954: «12 Artistas Portugueses», com ilustrações de Júlio Pomar, António Domingues, Maria Barreira, Carlos Rafael, António Alfredo, Alice Jorge, Cipriano Dourado, Lima de Freitas, Querubim Lapa, Rogério Ribeiro, Dias Coelho e Maria Keil: “Este calendário reúne 12 desenhos / de 12 artistas portugueses / e em cada um deles se formula, por diferentes maneiras, um voto único: / um voto único, belo e universal / sejam afastadas / ameaças e pavores, e relegada a guerra / para o rol das coisas que deixaram de existir / um voto único: ver o espírito de negociação / e de entendimento entre os povos / lançar raízes / e dar frutos / que o ano de 1954 seja assim um ano de paz / apertem-se os laços de amizade entre as gentes / e tenham livre curso / as relações culturais, o comércio dos povos, a alegria das crianças”. Uma obra pensada para assinalar datas oposicionistas importantes. Dias Coelho ilustrou o mês de Novembro e assinala o Dia do Estudante, a 25 Nov, instituído na reunião das Três Academias em Coimbra (1951), em homenagem à “Tomada da Bastilha” pelos estudantes em 1921. Tem lugar o II Congresso Mundial da Paz, em Viena, a que assiste Maria Lamas. No seu regresso, em 20 de Dezembro, muitos jovens e amigos a aguardam no aeroporto de Lisboa, mas o voo acaba por ser atrasado e cerca de 50 jovens são presos e levados para Caxias. Entre estes, encontra-se a sua irmã Maria Sofia. No ano lectivo 1953-54, Dias Coelho e Margarida voltam à ESBAL onde fazem a cadeira de Arqueologia.

1954

Faz experiências com vidros na Fábrica-Escola Irmãos Stephens, na Marinha Grande.
Com Júlio Pomar, Alice Jorge, Maria Barreira e outros, enceta experiências com cerâmica quer na Fábrica da C.I.P. na Marinha Grande, quer na Cerâmica Bombarralense, do amigo Jorge de Almeida Monteiro. Na 8ª EGAP (12-21 Maio) expõe duas esculturas: “Retrato de D Maria Isabel Aboim Inglez” e “Pastor”. Apresenta ainda dois pratos cerâmicos, pintados. Desenha a “Morte de Catarina Eufémia”, camponesa assassinada pela GNR em Baleizão (19 Maio). O casal vai viver para a Av General Roçadas 74-1º Frente, em semi-clandestinidade.

1955

Concebe dois grupos escultóricos para a Escola Primária de Campolide (secções feminina e masculina) e uma escultura de vulto para o espaço envolvente da Escola Primária do Vale Escuro, ambas em Lisboa. Infelizmente esta última encontra-se seriamente vandalizada.
Esculpe, in situ, na parede do Café Central, em Caldas da Rainha, um painel desenhado por Júlio Pomar, conseguindo transpor para o gesso a simplicidade e a força do traço daquele artista.
Aceita o convite do Partido Comunista Português e mergulha na vida clandestina (Set-Out). António Borges Coelho recorda a manhã desse dia, em que ambos se “despedem” com um café na Praça Paiva Couceiro, em Lisboa. Margarida e a filha, Teresa, irão juntar-se-lhe em Novembro. Vão residir para a Av Rio de Janeiro, 4-4º andar, trazeiras, a primeira das várias casas clandestinas por onde passarão. Vão montar e gerir um Gabinete Técnico de Falsificações.

Alguns dos pseudónimos adoptados: Fausto, Romeu, Pedro (JDC); Leonor (MT).

1956

Na 10ª e última Exposição Geral de Artes Plásticas (Junho), de carácter antológico, os amigos repõem uma peça sua, a cabeça da irmã Maria Emília, que já havia sido exposta.

1959

Por questões de segurança, e poder vir a frequentar a escola primária, são constrangidos a separar-se da filha mais velha, Teresa, entregando-a à família paterna (Fev-Março).
Nasce a segunda filha, Margarida (25-04).

1960

Embora atribuído apenas a si, sabe-se hoje que escreveu com Margarida Tengarrinha o livro Histórias da Resistência, que circulou clandestinamente e apenas é publicado em Portugal após 1974. Dividido em quatro capítulos, o primeiro e terceiro são da sua autoria, enquanto o segundo e quarto foram escritos por Margarida. Trata-se do primeiro documento sistematizado e publicado no nosso país sobre a Repressão Salazarista.

1961

A 19 de Dezembro José Dias Coelho é morto pela PIDE com dois tiros à queima-roupa na Rua da Creche, em Alcântara. Residia, então, à Rua de Pedrouços (Belém). Pertencia à Direcção da Organização Regional de Lisboa do Partido Comunista Português, e dirigia o Sector Intelectual. Presume-se que tenha sido denunciado.
O funeral realizou-se no dia 26 de Dezembro para o cemitério de Benfica.
Margarida Tengarrinha apenas toma conhecimento da sua morte no final desse dia.
Será ela a redigir a notícia para o jornal “Avante!” que será ilustrada por Lima de Freitas.

Só após o 25 de Abril foi possível levar a Tribunal os agentes da PIDE envolvidos na sua morte. Pertenciam à Brigada de José Gonçalves. Nunca confessaram a denúncia nem quem lhes dera ordens. Apenas um foi condenado – António Domingues -, o autor dos dois disparos que atingiram Dias Coelho. Mas a pena que lhe foi imputada – três anos e seis meses – indignou a comunidade democrática portuguesa no início de 1977.