COLÓQUIO: HISTÓRIA, MEMÓRIA E VIOLÊNCIA NO SÉCULO XX (Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, 24 e 25 de Fevereiro de 2012 )

FONTE: José Neves.

HISTÓRIA, MEMÓRIA E VIOLÊNCIA NO SÉCULO XX

24 e 25 de Fevereiro de 2012
Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa
Sala Multiusos 3, Piso 4, Edifício I&D
INSTITUTO DE HISTÓRIA CONTEMPORÂNEA
Linha de Investigação Poder, Cultura & Ideias
Coordenação de José Neves, Luís Trindade, Pedro Martins e Tiago Avó
Apoios: FCT | Institut Français | Instituto Cervantes | FCSH-UNL
com Javier Rodrigo Sanchez, António Monteiro Cardoso, Miguel Cardina, 
Fernando Ampudia de Haro, Tiago Avó, Luís Trindade, Fernando Rosas, 
Enzo Traverso, Maria Benedita-Basto, Manuela Ribeiro Sanches, 
Elisa Lopes da Silva e Manuel Deniz Silva. 
PROGRAMA

24 de Fevereiro
(sexta-feira)
10h15, abertura
10h30 | ESPANHA, VIOLÊNCIA E FASCISMO
Javier Rodrigo Sánchez (Universidad Autonoma de Barcelona)
A este lado del bisturí. Violencia y fascistización en la España sublevada.

11h30 | O SÉCULO XIX PORTUGUÊS

António Monteiro Cardoso (ESCS-IPL, CEHC/ISCTE-IUL)
Violência política em Portugal no século XIX. Memória e História.
15h00 | O ESTADO NOVO
Miguel Cardina (CES-UC e IHC-UNL)
Violência, testemunho e sociedade. Incómodos e silêncios em torno da memória da ditadura.
Fernando Ampudia de Haro (IHC-UNL)
Branquear e revisar: historiografia e política à volta do Estado Novo.
17h00 | A REVOLUÇÃO DE ABRIL
Tiago Avó (Birkbeck College, IHC-UNL)
O lugar do PREC – comemorativismo e memória mediática.
Luís Trindade (Birkbeck College, IHC-UNL)
A construção da memória em torno do 25 de Abril de 1974.
——
25 de Fevereiro
(sábado)
10h30 | O MUNDO DO SÉCULO XX
Fernando Rosas (FCSH/IHC-UNL)
Memória da violência e violência da memória.
Enzo Traverso (Université Jules Vernes Picardie)
L’âge de la Violence.
15h00 | IMPÉRIO E ANTICOLONIALISMO
Maria-Benedita Basto (Université Paris IV)
A política da História: dinâmicas emotivas das transmemórias na escrita do passado no presente em espaços (ex)imperiais.
Manuela Ribeiro Sanches (FLUL-CEC)
Nação, cultura e violência: (trans)nacionalismos na obra de Frantz Fanon e Amílcar Cabral.
E ÀS 18H30, NA CASA DA ACHADA – CENTRO MÁRIO DIONÍSIO, À MOURARIA, SERÁ LANÇADO O LIVRO “O PASSADO: MODOS DE USAR“, DA AUTORIA DE ENZO
TRAVERSO E PUBLICADO PELAS EDIÇÕES UNIPOP. DECORRERÁ UMA CONVERSA COM ENZO TRAVERSO, ELISA LOPES DA SILVA E MANUEL DENIZ SILVA.
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RESUMOS DAS COMUNICAÇÕES:
Javier Rodrigo Sánchez: A este lado del bisturí. Violencia y fascistización en la España sublevada
Esta ponencia analizará, en perspectiva comparada pero desde la experiencia española, las formas de la violencia sublevada en la España de Franco y evaluará la operatividad de su definición como “fascista”. Desde esa premisa, se analizará la violencia en el marco de la fascistización de la España sublevada.
António Monteiro Cardoso: Violência política em Portugal no século XIX. Memória e história
Através desta comunicação pretende-se analisar a memória e a historiografia acerca da violência política em Portugal no século XIX, à luz dos conceitos de “uso público da história”, de Habermas, e de “regimes de historicidade”, de François Hartog.
Para isso, iremos centrar-nos na guerra civil de 1832-1834, o acontecimento violento mais marcante do século XIX, examinando o modo como a violência exercida, quer pelos vencedores, quer pelos vencidos, foi sendo evocada, manipulada ou silenciada até ao presente, de acordo com diferentes regimes de historicidade.
Procuraremos indagar também em que medida a actual subalternização dos estudos sobre o século XIX, em favor do contemporâneo, de par com a utilização de alguns métodos de abordagem da sociedade novecentista portuguesa tem conduzido a uma visão legitimadora das estruturas políticas e sociais dominantes.
Miguel Cardina: Violência, Testemunho e Sociedade. Incómodos e silêncios em torno da memória da ditadura.
A presente comunicação percorre a forma como a memória do Estado Novo, nomeadamente nas suas facetas mais repressivas, tem sido dominantemente difundida, trabalhada e silenciada. Com efeito, as noções de vítima, por um lado, e de uma ditadura de «baixa intensidade», por outro, exigem ser olhadas criticamente através de uma leitura mais ampla da violência política, que contemple a sua amplitude, a sua função e o modo como foi gerida pelo regime. Neste domínio, cabe ainda frisar a presença de um certo imaginário «lusotropical», que entende a colonização portuguesa como exemplo de sã convivência, e o seu contraste com a experiência da colonização e da guerra, tal como aparecem em testemunhos, documentários e trabalhos historiográficos contemporâneos. Por fim, traça-se o modo como as questões relativas ao passado da ditadura foram sendo observadas desde 1974, oscilando entre reivindicações pelo direito à memória e irrupções significativas de amnésia social.
Fernando Ampudia de Haro: Branquear e revisar: Historiografia e política à volta do Estado Novo
O objectivo da comunicação é realizar uma aproximação ao debate historiográfico em Portugal sobre o Estado Novo, nomeadamente, àqueles aspectos mais controversos relativos à violência, à repressão e à dominação colonial. Através destes aspectos são articuladas as categorias de “branqueamento” e “revisionismo” como conceitos usados pelos historiadores para, no âmbito público ou no profissional, legitimar ou deslegitimar certas leituras históricas acerca do passado ditatorial do país. No entanto, essas dinâmicas de legitimação-deslegitimação possuem também uma dimensão política: se reduzirmos a questão do “branqueamento” ou do “revisionismo” a um debate meramente historiográfico estaríamos prescindindo de interessantes elementos de análise que permitem observar a ligação entre essas leituras do passado e o contexto sócio-político no qual estão inseridas e são produzidas. Neste sentido, a comunicação vai estudar os vínculos entre a historiografia, os mitos fundadores da democracia portuguesa e as leituras do passado que fazem parte da cultura política dos portugueses. Só assim ficam reunidas as condições necessárias para percebermos o fundamento, as possibilidades e mesmo o eventual sucesso social, comercial e historiográfico das atitudes chamadas de “branqueadoras” ou “revisionistas”.
Luís Trindade: A construção do tempo da memória revolucionária
A fixação da memória do processo revolucionário português de 1974-75 foi contemporâneo do próprio agir revolucionário. Em certo sentido, pode dizer-se que fez parte dele. A identidade da revolução – como superação da ditadura ou construção do socialismo – determinou assim o tipo de memória que sobre ela se formou, bem como a temporalidade da sua construção.
Tiago Avó: O lugar do PREC. Comemorativismo e memória mediática.
A comemoração oficial da revolução e a abordagem mediática na imprensa nos aniversários da revolução sofreu um processo de reactualização e de redefinição ideológicas. A legitimação do processo de “normalização democrática” em oposição à “anarquia” e ao “caos” dos anos revolucionários tem servido de linha de orientação para a construção de uma memória mediatizada dos anos de 1974-1975.
Fernando Rosas: Memória da Violência e a Violência da Memória
A comunicação trata da memória como processo social de construção de representações e, a esse título, como terreno de disputa pela hegemonia acerca do sentido do presente e do futuro. Após o que, em concreto, procura aplicar esse modelo interpretativo aos “acidentes da memória” sobre a revolução portuguesa de 1974/75, ensaiando-se ainda uma “geografia temática do revisionismo historiográfico”. A esse propósito aprofunda-se o tema da violência nos regimes fascistas e no Estado Novo em particular.
Enzo Traverso: L’âge de la violence. Histoire et mémoire du XXe siècle
Nous assistons, en ce début du XXIe siècle, à une réactivation du passé à l’échelle internationale. Une différence majeure qui le sépare des deux siècles qui l’ont précédé — le XIXe marqué par l’impact de la Révolution française et le XXe par celui de la Révolution russe — réside dans l’éclipse des utopies. Après la fin du communisme, toute projection utopique vers l’avenir semble interdite. La disparition d’un « horizon d’attente » visible engendre une mémoire saturée du siècle passé comme une époque de la violence — où les révolutions restent englouties comme catastrophes humanitaires ou antichambres du totalitarisme — dominée par la figure de la victime. Trois espaces mémoriels se dessinent aujourd’hui en Europe : un espace occidental façonné par le souvenir de la Shoah ; un espace oriental dominé par l’héritage du communisme ; et un espace postcolonial exhumant le passé impérial du continent. Le croisement de ces différentes mémoires peut se révéler fructueux aussi bien sur le plan herméneutique (repenser l’histoire de l’Europe) que sur le plan politique (reformuler une idée de citoyenneté dépassant les clivages nationaux), à condition d’en rejeter les usages apologétiques (commémorer les violences du passé afin de légitimer l’ordre dominant) et de redécouvrir les dimensions cachées ou refoulées du passé (les luttes émancipatrices du XXe siècle).
Maria-Benedita Basto: A política da História: dinâmica das transmemórias na escrita do passado no presente em espaços (ex)imperiais
Nesta comunicação proponho-me reflectir sobre a operacionalidade de um conceito como o de “transmemórias” para a resolução de alguns problemas contemporâneos da escrita historiográfica que concerne espaços comuns de violência, neste caso, os espaços saídos do colonialismo.
Gostaria de partir do cruzamento de três argumentos: o primeiro parte do trabalho que Jacques Rancière (1998) fez em torno da sua expressão “política da literatura” para, numa reutilização talvez ousada, propor uma interrogação da escrita da história nesse contexto preciso que corresponde ao (ex)império colonial português. O segundo argumento, releva da reflexão que Enzo Traverso desenvolve sobre um mal estar da/na história no seu livro L’Histoire comme champ de bataille (2011). Traverso interroga-se nesta obra sobre as consequências políticas de uma escrita do passado no presente perspectivada entre vencedores e vencidos onde não há lugar para as dinâmicas de constituição de sujeitos políticos. E isto numa situação marcada pelo naufrágio de uma ideia de progresso e pela proliferação das representações memoriais. O terceiro argumento vou buscá-lo ao pensamento de Ann Stoler sobre uma epistemologia do trabalho histórico ou mais globalmente das ciências sociais (Along the Archival Grain, 2009) que oferece uma resposta ao problema colocado por E. Traverso. Stoler propõe uma escrita das ciências sociais que ultrapasse binarismos interessando-se pelas emoções, pela domesticidade dos espaços íntimos e, ao mesmo tempo – juntando agora Rancière a Stoler – pela partilha do sensível (Rancière, 2000).
Estes vários argumentos, que justificam uma atenção às transmemórias, serão desenvolvidos tendo também como base alguns excertos do trabalho cinematográfico de Raquel Schefer, e alguma escrita romanesca em torno de retornados.
 
Manuela Ribeiro Sanches: Nação, Cultura e Violência: (trans)nacionalismos na obra de Frantz Fanon e Amílcar Cabral
Revisitar o século XX e o passado é tarefa de história e memória, mas também de reactualização de teorias, lidas à luz não só do contexto em que surgiram, mas também da sua possível relevância para a nossa contemporaneidade.
Partindo de uma análise comparativa do papel da violência na obra de Fanon e Cabral e do modo como a cultura se associa estreitamente a esse conceito na construção da nação, considerarei ainda a forma como as experiências transnacionais de ambos os autores terão sido determinantes para o desenvolvimento do seu nacionalismo.
Ao mesmo tempo, interrogar-me-ei sobre a relevância dessas mesmas posições para a Europa nossa contemporânea, pós-colonial e pós-transnacional. Lidos na nossa actualidade, a contrapelo, esses textos poderão conter propostas ainda relevantes para um continente que vive, no momento, um desafio inédito à sua identidade, em termos políticos e culturais.
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